9 — O PADRE
A noite chegou em Rio Denso. Uma brisa fria soprava do lado de fora da igreja, e, algumas vezes, o vento cantava quando passava por entre as folhas das árvores da praça. O padre, que um dia fora chamado de Julio Cani, passou o dia todo dentro da grande igreja, orando e buscando uma solução para o novo problema que eles tinham agora.
Após horas e horas em busca de um sinal de Deus, Julio conseguiu. Os joelhos doíam pelo tempo ajoelhado sem se mexer. Seu Deus não o deixaria sozinho, solto naquele mar de lobos. Era um Deus fiel, desde que o padre também fosse. Quando tentou se pôr de pé, os joelhos o abandonaram e ele caiu, chocando-se contra o banco de madeira. A dor da pancada o obrigou a ficar um tempo se recuperando, até fazer uma nova tentativa com sucesso.
O interior da igreja estava escuro, com apenas algumas velas acesas na frente do altar, deixadas pelos fracos e pecadores moradores de Rio Denso. Eles achavam que, acendendo velas e indo à igreja todos os dias, sanariam suas dívidas com Deus. Julio sabia que não. Seu Deus, por mais piedoso que fosse, não se esquecia tão fácil das coisas. Aquelas pessoas baixaram suas armas e aceitaram o Demônio. Ele teve de se forçar a isso também. Não conseguiria derrotá-lo sozinho, e Deus sabia disso — pelo menos, era o que Julio Cani imaginava.
Andou pelo corredor de bancos, a bata negra se movendo para trás no ritmo do caminhar. Alcançou uma porta que ficava próxima ao altar e que daria em seus aposentos. Trancou-a por dentro, para não correr o risco de ser surpreendido por qualquer morador importuno em busca de perdão pelas covardias praticadas ou para chorar por seus lindos bebês, que se iam todos os anos. "Aceitaram o Demônio, que sofram as consequências", pensou o padre. Porém, ele não podia se negar caso alguém aparecesse. Era seu papel ouvir, mesmo que nem ele e nem Deus dessem a mínima para as preces daquelas pessoas pecadoras. E Julio precisaria deles em breve. Teria de arrumar uma maneira de trazer a luz de volta às suas mentes. Ele e Deus precisavam daquelas pessoas, e talvez, só talvez, fossem perdoados por um dia terem acatado as ordens de Lúcifer.
O padre subiu as escadas a passos lentos, cada dobrada de joelho trazia uma dor intensa. Forçou-se a vencer um degrau por vez, precisava terminar sua adoração a Deus para receber a ajuda divina nos próximos dias. No andar superior da igreja, havia dois cômodos, apenas: o banheiro e seu quarto.
O interior do quarto era pequeno e continha apenas uma cama de solteiro e um criado-mudo. Os dois eram de madeira rústica escura, como se pertencessem a outra época. O padre se aproximou da janela, que ficava ao lado da cama, e a abriu.
"Que noite linda" pensou. "Aposto que quem a enviou para mim foi Deus, como agradecimento por eu ser um servo tão leal!". Apreciou a leve brisa soprar contra o rosto, inspirou o ar lentamente, segurou-o no pulmão, soltou-o lentamente. Atrás da igreja, não havia nada além de árvores, assim como na praça em frente a ela. Ninguém morava ali atrás e ninguém podia vê-lo (a não ser Deus, que, com certeza, observava-o). Ainda em frente à janela, o padre se despiu, deixando a bata despencar no chão.
Tinha corpo atlético, mesmo que raramente fizesse algum exercício (talvez por andar demais pela cidade e pela igreja, atendendo aos chamados dos pecadores). Ficou mais alguns instantes sentindo o sopro do vento percorrer todo o seu corpo. A luz da lua entrava pela janela e a pele negra do padre quase brilhava quando em contato com ela. Ele sorria, pois sentia o poder de Deus. Sabia que tinha que fazer aquilo novamente. Teria que terminar o trabalho que fizera pela metade anos atrás, por causa de algumas pessoas intrometidas que não foram fortes o suficiente para seguir em frente. Mas agora elas se arrependiam e choravam.
Virou as costas para a janela, apreciou frescor da noite. Os olhos negros do padre percorreram o quarto, tentando lembrar-se onde havia deixado o instrumento que precisava. Avistou o rosário sobre o criado-mudo. Rezava-o todas as noites. Caso contrário, Deus ficaria furioso. Mas, naquele dia, quando Julio orava à tarde em busca de orientações, Ele havia pedido algo a mais. O padre recolheu o rosário, abriu a gaveta do criado-mudo e catou um chicote. Fazia um bom tempo que Deus não o pedia aquilo. Ao segurar o objeto, seus dentes brancos pintaram o escuro que era o quarto.
Avaliou-o por alguns segundos. Aquilo era mais um improviso do que um chicote realmente. Fora ele mesmo quem fizera. O cabo era uma madeira torta, mas resistente. As pontas eram feitas com partes de borracha de câmara de ar. Não era muito profissional, mas servia para a penitência. Servia para agradar ao seu bondoso Deus, e Julio era feliz por isso.
Julio Cani se voltou para a frente da janela, sentindo tudo que Deus enviara para ele naquela noite, e começou a rezar. E, a cada finalização de uma Ave-Maria e um Pai Nosso, chicoteava-se nas costas. No início, finos filetes de sangue começaram a escorrer pela pele negra, esquentando-a. Se o padre sentia dor, não deixava transparecer. O sorriso de quando encontrara o chicote ainda estava vivo e ficaria esticado na face até o fim da penitência, depois de quarenta minutos e cinquenta e nove chicotadas.
As costas do padre estavam em carne viva, mas ele não demonstrava dor alguma. Deixou o chicote e o rosário caírem ao chão do quarto e abriu os braços. Sentiu seu Deus lhe invadir. Sentiu seu Deus soprando contra o corpo purificado, cobrindo-o da cabeça às pontas dos pés. Sentiu a luz divina da lua transpô-lo, e sabia que teria justiça. Acabaria com os demônios daquela cidade, fossem eles sobrenaturais ou não. Seu sorriso se transformou em uma gargalhada, e foi aumentando, transformando-se na risada de um lunático. Mas ele não era um. Ele era o escolhido de Deus. Ele fora enviado para aquela cidade com o propósito de livrá-la do Diabo. Fracassara na primeira tentativa, não fracassaria na segunda. Deus estava com ele e não o deixaria na mão.
Foi ao banheiro, onde se lavou com água fria. As costas queimavam, mas ele não se queixava. Era o preço a se pagar. Voltou ao quarto, os rastros dos pés molhados marcando o piso de madeira, as gotas escorrendo pelo corpo e pingando. Deitou-se na cama, sentindo uma grande paz interior, empapando o lençol com água e sangue. Seu Deus estava mais presente do que nunca e o fazia se sentir feliz, como se tivesse encontrado o amor de sua vida. Dali a alguns dias, algo sangrento aconteceria, e ele se banharia com o sangue dos pecadores e dos demônios. Deus estaria com ele, claro, ajudando-o a exterminar aquela cidade mundana, trazendo-a de volta aos escolhidos, expurgando os pecadores.
Deitado na cama, ainda despido, o padre sentiu algo esquentar entre as pernas. Seu membro, que há poucos minutos estava flácido e sem vida, começou a criar forma e crescer. O padre levou uma mão até ele e começou a se masturbar, sentindo a presença de Deus em cada ato. Suas pernas se ergueram e ele sentiu algo penetrá-lo. Largou um berro de prazer. Um berro que havia dado poucas vezes, apenas quando seu Deus vinha visitá-lo para preenchê-lo com amor. Masturbou-se até chegar a um forte orgasmo, com o sorriso branco ainda no rosto e se sentindo lisonjeado por ter sido escolhido e tocado por Deus. Sem se limpar, virou-se de lado e caiu no sono. No outro dia, teria muito trabalho a fazer. Dali a cinco dias, teria sua vingança. E seu Deus o agradeceria novamente.